segunda-feira, janeiro 24

Um pássaro em sua nova dimensão

Durante os dias nos quais estive ausente, estava recolhida em oração por Tia Maria Tabosa, pessoa muito amada por mim e por quem a conheceu de verdade. Tia Maria partiu, mas deixou, além de suas belas obras como artista plástica autodidata, a certeza de que soube amar a fazer-se amada. Compartilho aqui um de seus belos trabalhos, além do breve estudo feito por mim quando estava na graduação em Arte/Educação, para a disciplina de História das Artes Plásticas Brasileiras.


A ARTE DE MARIA TABOSA- UM PANORAMA DA ARTE PERNAMBUCANA
Observando a obra de Maria Tabosa, de imediato nos encantamos com o dinamismo das linhas, o colorido suave e quente, o ato feminino de costurar a liberdade, os sonhos, de forma atemporal. Trata-se de uma obra riquíssima em detalhamento formal e significados.
Há o registro de imagens, que não somente descrevem uma trajetória individual de um inconsciente lúdico, mas a conscientização de uma regionalidade apreendida à captura da diversidade cultural da nossa gente. Encontramos em Maria Tabosa a peculiaridade e o esmero no traço próprio, que se manifesta entranhado da arte e do artesanato de Pernambuco. Percebemos, no trabalho desta artista, a espontaneidade do desenho infantil que, no adulto contaminado de referências, produziu o contemporâneo nas vanguardas modernistas.
Em seus desenhos, os elementos vibram, complementam-se numa harmonia sensual. As figuras, tanto evocam brincadeiras, festejos, fábulas, pulando dentro da composição, como fixam-se, convidando-nos  a ouvir com o olhar o diálogo das retinas.
Encontra-se o movimento fluido das aquarelas da fase figurativa de Cícero Dias. Nota-se, em algum momento, a precisão formal, elegante e cerebral na composição de espaços distintos, tão presente na xilogravura, dos Borges a Samico. As modalidades diversas das linhas vão contando histórias. Desenhadas com esferográficas, compartilham espaços com o primitivismo cromático, tão popular, aqui conquistado com lápis de cor. A composição é lírica, tensa, brinca com a nossa memória visual e cultural. E eis que surge o tridimensional: tecidos bordados, estamparia artesanal, retalhos justapostos; a cerâmica policromada do barro caruaruense; o maracatu rural, com sua flores e fitas...e retornamos imediatamente ao bidimensional pela força do suporte, a superfície nos traz de volta. E nesse chão, o desenho, vamos reconhecendo mais uma trilha por onde nos conduzem  as linhas: a arte seqüencial, pernambucana, universal. São os personagens, que  com sua simbologia nos convidam a pensar o seu “delineamento, esboço,intento, propósito, desígnio”( definição de Aurélio para o vocábulo desenho ).  É o pássaro que vira peixe ou um grande peixe metamorfoseando-se num pequeno pássaro.
Enfim, a arte de Maria Tabosa, em seu processo de maturação, como nos diz a própria artista, “ representa a liberdade” . Liberdade de quem, a exemplo da Fênix, a imponente ave egípcia, está ligada ao sol e à figura feminina de uma deusa, cultuada por realizar o fenômeno da superação.


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