terça-feira, janeiro 4

CRONOS e o caminho para a imortalidade

Fênix feita de garrafa pet, EVA e esmalte sintético.
Lindo presente confeccionado por minha amiga Mila
Finalmente aterrissei em 2011! Como sempre, Cronos e eu tentando organizar minha vida. É muito engraçado pensar no tempo. Geralmente nos queixamos de sua perenidade ausente. Com ele tudo parece um flash de existência. Ontem e hoje eu e um amigo querido conversávamos sobre Cronos e eu arrisquei uma "análise", se é que posso chamar assim, das nossas relações com o mito. Depois, sozinha, comecei a pensar sério sobre isso e vieram outras questões, que resolvi compartilhar aqui. Quero enfatizar que são apenas reflexões. O que escrevo é fruto dos meus pensamentos. Busquei em sites as citações, mas o que escrevo vem das minhas indagações. Acedito que não há um mito fechado, amarrado a determinadas considerações. Ao contrário, o que me agrada nos mitos é a flexibilidade, a fluidez com que nos vemos presos a eles, que caracterizam fases e situações vividas. O mesmo mito pode provocar reflexões distintas e isso é bacana, poder repensar a vida a partir do que os mitos nos trazem. No caso de Cronos há alguns aspectos que poderemos considerar, investigar no nosso processo de individuação, a partir das relações entre este deus e os deuses  Gaia, Metis , Réia e Zeus. Vejamos.
 Primeiro, "a pedido de sua mãe (Cronos) se tornou senhor do céu, castrando o pai com um golpe de foice". Acredito que quando assumimos um Cronos castrador e inseguro, perdemos muito fácil a energia vital para conquistarmos os nossos objetivos. Entra em cena a arrogância, a superioridade de um olhar verticalizado que não considera o entorno. Separando definitivamente céu e terra, Cronos isola corpo e mente e desequilibra as nossas forças complementares. Nossas relações humanas tornam-se conflitantes, principalmente entre gerações distintas e hierárquicas. Podemos perceber esse aspecto castrador de um Cronos jovem que se insurge contra valores antigos, tradições ditas como ultrapassadas, encaradas com violência. Relações de trabalho, familiares e o processo de individuação ficam lesados quando não compreendemos o tempo como aliado no nosso amadurecimento. A relação de Cronos com Gaia, a mãe manipuladora, também é considerável. Interessante observarmos que, de acordo com o mito, Gaia “ fez de seu próprio seio uma pedra em forma de lâmina” ou foice, com a qual Cronos decepou o falo de seu pai. Mulheres que não se resolvem com seus parceiros e manipulam seus filhos, colocando-os contra seus pais, podem estar fortemente ligadas a estas relações mitológicas. Perdendo o seu tempo, fazem os outros perderem o seu tão precioso tempo também.

No seu segundo aspecto, Cronos é o"engolidor dos filhos". Quantas vezes engolimos os próprios projetos antes mesmo deles criarem consistência?

Aí surge o terceiro aspecto do mito,"... comeu todos exceto Zeus, que Réia conseguiu salvar enganando Cronos, enrolando uma pedra em um pano, a qual ele engoliu sem perceber a troca."  Nossa vida profissional muitas vezes é esse Zeus/pedra, que nós engolimos por engano, aquilo que foi assumido, mas não digerido, aceito por conveniência, um incômodo que poderá durar toda uma vida. O pano é a conexão com a realidade, o tecido, aquilo que é assimilado em sua aparência compreensível, como disfarse daquilo que realmente gostaríamos de fazer, nossa verdade oculta. Vejo associado a isso o pensamento de investir numa profissão que dê dinheiro, em detrimento àquilo que realmente queremos e que nos faria felizes. Nesse sentido, a pedra é a dureza interior maquiada, o “preciso ganhar dinheiro para sobreviver” e tantas vezes sacralizada, envolta no pano da pseudo coerência.  Proposta por Réia, que compõe esta reflexão como a vida prática, o jogo de cintura, o pensar rápido, a esperteza da  inteligência objetiva que nos desvia da verdadeira realização. Por fim, completando a conexão dos equívocos, o Zeus/pedra, que é o nosso masculino aceitável, o racional, que em sua forma negativa promove estragos enganadores. Quanto tempo perdido!
Vejamos o quarto aspecto. "Quando Zeus cresceu, resolveu vingar-se de seu pai, solicitando para esse efeito o apoio de Metis , a Prudência, filha do titã Oceano. Esta ofereceu a Cronos uma poção mágica, que o fez vomitar os filhos que tinha devorado." Zeus, o verdadeiro,  representa aquilo que vive e é latente em nós. É um belo arquétipo de herói e de realização positiva, na sua relação com o pai Cronos. Como arteterapêuta em processo, vejo Metis como sendo a Arteterapia, que retoma a energia reprimida com sua poção mágica: as vivências! Elas nos fazem vomitar aquilo que não foi digerido porque não foi assimilado como deveria. É o momento de retomada, de revermos nossos modelos arcaicos de planejamento do tempo.  É o alívio: podemos ainda consertar os erros do passado, pois o tempo não foi de todo perdido! Resta a nossa verdade, o nosso Eu e a terapia individual é aquela que nos ajuda a transformar o “vingar-se” em fazer justiça a nos mesmos. Ela entra no processo nos fazendo assumir o nosso tesouro de luz (significado do nome ZEUS). Penso que as vivências arteterapêuticas, como pintura em pedras e costura/bordado em tecidos podem nos ajudar a reavaliarmos o tempo e suas implicações em nossas vidas. Entremos em contato o mais profundo que pudermos com o nosso tesouro luminoso, o nosso Eu. Um dos símbolos ligados a Zeus, além do carvalho, do relâmpago e do touro, é a ÁGUIA. Assim como a fênix, temos mais uma ave a nos inspirar. Ligada a Zeus, a águia é símbolo de FORÇA, de perspicácia,  visão penetrante, inteligência superior. Assim como símbolo das artes e da alma humana. Então, que venha a águia e nos ensine a abraçar Cronos com suas garras e com a força de Zeus, nos conduza à imortalidade.

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