Algumas músicas em suas versões e novas roupagens são simplesmente encantadoras. Principalmente quando, além da melodia e interpretação instrumental, soma-se uma boa interpretação vocal.
Gosto de música. Canto. Confesso que tenho escutado pouca coisa, mas tenho curtido Corinne Bailey Rae e sua versão para My Love, de Paul McCartney. Estou muito sensibilizada com a Arteterapia e suas vivências mágicas e talvez esta nova fase de minha vida esteja ressignificando minha sensibilidade. Na verdade é isso mesmo. Sinto-me aberta ao Bem, ao amor, à natureza, à vida...de modo mais estruturador. E a música, de um modo geral, me faz entrar em contato com questões sutis e delicadamente significativas. Assim tem sido sempre que ouço a canção My Love, ultimamente. Sinto como se tivesse adentrado num caminho bucólico, ultrapassando um portal, conduzida a uma passagem secreta, prestes a me apropriar de um conhecimento sagrado, maior. Estranho, mas sinto isso tudo com essa música na voz de Corinne, que me reporta à Minnie Riperton do início dos anos 70 com sua inesquecível Lovin’ You, certamente uma referência.
Bem, já que a My Love de Corinne Bailey me induz a um percurso, vou seguir seus passos que me levam a uma simbologia. A meu ver, a música fala de uma permanência, de uma efemeridade que não macula o que fica, o que é e precisa estar fixo no ser. Fala de um amor que não passa, embora o movimento da relação seja configurada como uma passagem, numa dualidade entre o que permanece e o que se vai. Para tanto, há na música, algumas imagens que nos direcionam nessa compreensão: as mãos, os armários vazios e a chave.
Na cultura hebraica, a mão simboliza o conhecimento. A música canta I know my heart can stay with my love/It's understood/It's in the hands of my love (Eu sei que meu coração pode ficar com meu amor/É compreensível/Está nas mãos do meu amor). Nesse sentido, o coração se confia às mãos da pessoa amada com uma ternura convicta. Jean-Yves Leloup (1998), no seu livro O corpo e seus símbolos: uma antropologia essencial, cita o Evangelho apócrifo de Tomé, que diz “Teremos uma mão na nossa mão”, como que reverencia a vida contida na mão ou ainda a mão que comunica uma presença.
E a música segue cantando And when the cupboard's bare/I'll still find something there with my love (E quando os armários estão vazios
Eu ainda acho algo lá com meu amor). O vazio fala de morte e de renovação, daquilo que se vai para dar lugar a algo novo, a ser construído com o amor que ficou sutilmente a preencher o espaço vazio. Lembremos do cientista Robert Hooke que, no século XVII, analisando um pedaço de cortiça, observou que sua estrutura assemelhava-se a um favo de mel, com minúsculos orifícios esvaziados, formando uma dura membrana. A essa ausência que comunicava uma presença, Hooke denominou de “célula”. Assim nasceram os primeiros experimentos da Teoria Celular.
Ouçamos mais um pouco o que a música nos diz: Only my love holds the other key to me (Somente meu amor segura a outra chave para mim). A qual chave a composição se refere? A chave é um símbolo da abertura e do fechamento. Agrega poder a quem a possui. Na Bíblia, Jesus entrega a Pedro o poder de ligar e desligar. A iconografia cristã transforma esta passagem na imagem do apóstolo com “a chave do céu”. Há nesse gesto uma relação intrínseca de amor e poder entre o Mestre e seu discípulo, pois a quem muito amamos entregamos o poder da pertença do que nos é caro.
Símbolo de iniciação e de profunda espiritualidade, a chave também é um símbolo fálico, ligado à sexualidade. Em seu livro Sobre o amor, Jung vai dizer que o amor e o poder são sombra um do outro porque onde um impera o outro é anulado. Já para o grande líder negro, Martin Luther King, o poder abusivo é ausente de amor. Ao referir-se à “outra chave”, a letra traz esta dualidade do fim e do reinício, o corporal e o espiritual, aquilo que se encontra do lado de cá da porta, do coração e o que se encontra do outro lado.
A esta altura, interpreto ainda nessa canção, uma relação íntima do compositor consigo mesmo. Talvez o amor seja o seu próprio eu, afirmando-se, seguro de si na caminhada da vida, concluindo um ciclo e iniciando outro. Tendo encontrado a sua verdadeira essência, determinado a ser amor para si e para os outros peregrinos desta vida, quem sabe? Uma curiosidade é que foi com essa canção que Paul McCartney, em 1973, emplacou já sem os Beatles. Com os Wings, sua nova banda, que contava com Linda, sua esposa, tocando teclado e fazendo back, Paul reconquistou o seu público, reafirmando o seu talento.
Fontes consultadas
LELOUP,Jean-Yves. O corpo e seus símbolos: uma antropologia essencial. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.
http://netopedia.tripod.com/biolog/celula.htm
http://entrehermes.blogspot.com/2010/03/sobre-o-amor-por-c-g-jung.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_McCartney