Adentrando na historinha da postagem anterior, O Monge e o Escorpião, sou levada a uma análise sobre mim mesma, com a intenção honesta de rever as minhas reações e emoções frente aos relacionamentos do dia-a-dia. Quando assumo o monge que há em mim? e quando ajo como escorpião?
Percebo que o monge é benvindo na quietude, quando estou em paz comigo mesma, nos meus momentos sagrados de oração e meditação. Nessas experiências, o monge tranquilamente comunga com a paisagem serena e terna, tranquila e silenciosa, comunicando um Amor maior. Mas às vezes o monge se torna inconveniente, quando persiste, excessivo, mascarando a sombra, podendo fazer com que o escorpião, que surge, cresça assustadoramente.
Ele, o escorpião, nos diz o seu simbolismo astrológico que, se por um lado é "incapaz de viver muito tempo na calma, é apaixonado por transformações...e não lhe faltam resistência nem energia... sente-se diferente dos outros e raramente está livre de tensões...Não gosta de ser contrariado"; por outro é "Lúcido, de espírito penetrante, crítico e perspicaz...Percebe nos outros o 'defeito da couraça'...e se responsabiliza pelo que lhe acontece". Vejo nessa sombra um amigo que, contrariado e negligenciado, torna-se inimigo. Assim como vejo nesse "inimigo" um amigo excluído, incompreendido e não aceito, muitas vezes. Por que o escorpião agride o monge impiedosamente? Não seria uma reação ao fato do monge negar a natureza do bicho, tratando-o como uma ave ou um inseto, numa atitude impensada e arrogante, por se enxergar em status superior, humano e em maior estatura, entre outros aspectos? Talvez sim, talvez não. Depende do que sentimos e do que assumimos em determinadas circunstâncias, nas intercessões entre espaço e tempo.
Sempre tive muita dificuldade em conviver com a minha sombra, mas a Arteterapia me convida a uma abertura sincera e sem preconceitos ocidentais ou de qualquer natureza. Hoje prefiro o movimento natural nas relações entre luz e sombra, uma complementando a outra. No passado, o monge procurou muitos escorpiões para salvar. Umas vezes por necessitar do amor dos seus discípulos. Outras vezes por não aceitar as diferenças entre ele e o escorpião. E outras tantas por achar que merecia ser picado. E o escorpião, coitado, quantas vezes se suicidou, ressurgindo como “um negro gato de arrepiar” em suas mitológicas sete vidas? No entanto, quando o monge abriu seu coração para se amar de verdade, viu no espelho do seu rio interior, o escorpião banhando-se nas águas profundas. Então, compreendendo e aceitando a si mesmo, aos seus discípulos, a natureza interna e entorno e ao escorpião, que talvez não quisesse ser salvo, aprendeu como é maravilhoso ser "apaixonado", "perspicaz" e responsável por si mesmo, entre outras tantas virtudes que seu amigo lhe comunicou, contaminando-o com suas picadas transformadoras. A generosidade não é unilateral. Que bom, não? E todos comemoramos!
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