segunda-feira, janeiro 31

Felicidade é cultivo

Pois é pessoas. Parece coisa de autoajuda, mas é preciso cultivarmos um pensamento forte no que queremos. A felicidade é tão simples! E eu acredito nas pequenas felicidades. Elas vão abrindo o caminho do sol. Ofereço esta música bela de Renatinho Russo. Eu a reencontrei em meio aos meus aborrecimentos de final de semana. Curtam. Bjo!

MAIS UMA VEZ

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem.

Tem gente que está do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Tem gente enganando a gente
Veja a nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem.

Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena
Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos nunca vão dar certo
Ou que você nunca vai ser alguém
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!

Quem acredita sempre alcança!
Quem acredita sempre alcança!
Quem acredita sempre alcança!
Quem acredita sempre alcança!
Quem acredita sempre alcança!
Quem acredita sempre alcança!
Quem acredita sempre alcança!


domingo, janeiro 30

Insatisfação quintanesca com a poesia

Eis a luta amorosa de Quintana com as palavras. Amoooooooooooooo! Muito bom ler você, leãozinho!

Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas... Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade.
Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não astava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro - o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu... Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?
Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Érico Veríssimo - que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras.


Mário Quintana

Palavras mudas

Nossa, não imaginei que fosse tão complicado o amor. Eu que sempre vivi sozinha e agora me sinto atraída para construir uma relação com alguém...Fico tão deslocada nesse terreno. Sempre fui feliz só, mas cansei e estou aqui à espera de uma declaração de amor que só chega no olhar. Por que será? Aff...como são estranhos os meninos grandes! Quanto mais o tempo passa mais se fecham. E como são excessivos no falar, estão sempre querendo se expressar verbalmente, um saco! E falam tudo, menos o que interessa. Cd de palestra humano! Chatos! Chatos! Chatos! Ponho no plural porque acredito que existam vários assim, perdidos em si mesmos, com a auto-estima baixa, não se deixando amar.Tentando entendê-los, fico com o poema de Quintana sobre

Amar

Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer...
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei...
O amor é quando a gente mora um no outro.

sábado, janeiro 29

GAL COSTA - NUVEM NEGRA

Hoje acordei tão só...

"Hoje me acordei pensando em uma pedra numa rua de Calcutá. Numa determinada pedra numa rua de Calcutá. Solta. Sozinha. Quem repara nela? Só eu, que nunca fui lá. Só eu, deste lado do mundo, te mando agora esse pensamento... Minha pedra de Calcutá!" Mário Quintana

quinta-feira, janeiro 27

fREVO para o meu pai

FLABELO do meu bloco
Sou privilegiada por ter vários pais, nada que comprometa a linda pessoa da minha mãe, mas como me teve solteira, fui registrada com os nomes do meu tio e sua esposa. Coisas de vovó Júlia, que Deus a tenha! Sendo assim, minha mãe assumiu tudo, como só as solteiras sabem fazer, mas como vivemos numa sociedade machista...fui rodeada de "cuidadores". Engraçado observar que, assim como aconteceu com as mulheres na formação dos blocos líricos, aconteceu comigo e mamãe. Na estrutura desses blocos, fundados desde o início do século XX, as mulheres desfilavam pelas ruas da cidade rodeadas de homens cuidadores que formavam o cordão humano. Pais, maridos, namorados, irmãos "protegiam" com o próprio corpo as suas amadas durante o percurso momesco. A história da minha vida está intimamente ligada ao Banhistas do Pina, nas relações harmoniosas e conflitantes entre carnaval e família e suas convivências e divergências, entre o cordão que aperta e machuca e o abraço que protege.

É inserida nesta complexidade que trago a figura maravilhosa do meu pai Vavá de Banhistas. Conhecido do meio cultural, dos festejos de Momo, papai foi homenageado por Marcelo Varela e Maurício Cavalcanti no VII RECIFREVO, com o frevo PRA VOCÊ, VAVÁ, que diz

QUANDO FAUSTINO FOI MORAR NO ESPAÇO MÁGICO
O SEU LEGADO ENCONTROU UM SEGUIDOR
QUE DE BANHISTAS FEZ A SUA VIDA
DO CARNAVAL O SEU OUTRO AMOR

MENINO GRANDE QUE ILUMINA A CIDADE
GRANDE GUERREIRO A SUA TERRA ENCONTRO
QUEM É BANHISTAS SENTE A FELICIDADE
DE TER NO PEITO UM ETERNO SONHADOR

NOSSO BLOCO É VOCÊ, VAVÁ,
O RECIFE QUER VER VOCÊ
CONTANDO HISTÓRIAS QUE A GENTE QUER SABER


Papai na sede do Banhistas - década de 70

Musicoterapia - FREVO da minha infância

Bem, pessoas, como vcs podem observar, fui a precursora dos bichinhos da Parmalat, além de uma baianinha muito fofinha, modéstia à parte (bm à parte)! E enquanto não acho uma outra fantasia para ilustrar a música da minha infância, quero postar a letra da própria. É um frevo-de-bloco de Luiz Faustino (considerado por mim o Adoniran Barbosa do frevo pernambucano), compositor oficial do bloco lírico fundado por minha avó, o Banhistas do Pina. Cresci ouvindo este e outros tantos que rechearam de cultura viva a minha infância. Com vcs:

FESTA DO POVO

TODA  A CIDADE ESTÁ EM FESTA
PORQUE A TRISTEZA PASSOU
OS CLARINS ANUNCIANDO
E O POVO VIBRANDO
A ALEGRIA CHEGOU!
OS FOLIÕES SE DIVERTEM
OLHANDO O BLOCO PASSAR
VENDO O BANHISTAS DO PINA
O BLOCO QUE DOMINA NOSSO PESSOAL

O CARNAVAL ORIGINAL
QUE FAZ A GENTE BRINCAR SEM PARAR
LÁ VEM A ONDA, MEU BEM,
VAMOS PULAR TAMBÉM
FAZENDO O PASSO MAIOR
SEM IGUAL
A MULTIDÃO VEM CHEGANDO
O POVO SE AGLOMERANDO TODO
SEM PARAR
VAMOS CORRENDO PELAS RUAS DA CIDADE
PARA VER O BANHISTAS PASSAR!

MUSICOTERAPIA - música para minha mãe

Desde criança, mamãe fala que a música da vida dela é Detalhes, de Roberto Carlos, que inclusive foi o fundo musical para a mais bela criação já produzida pela família: EU kkkkkkkkkkk.

No entanto, ROSA, de Pixinguinha é a música que ofereço para minha mãe, dentro da proposta das vivências em Musicoterapia. Por se tratar de uma declaração de amor, eu a ofereço, enquanto espero ainda ser esta rosa na vida do homem amado! Curtam.

segunda-feira, janeiro 24

Um pássaro em sua nova dimensão

Durante os dias nos quais estive ausente, estava recolhida em oração por Tia Maria Tabosa, pessoa muito amada por mim e por quem a conheceu de verdade. Tia Maria partiu, mas deixou, além de suas belas obras como artista plástica autodidata, a certeza de que soube amar a fazer-se amada. Compartilho aqui um de seus belos trabalhos, além do breve estudo feito por mim quando estava na graduação em Arte/Educação, para a disciplina de História das Artes Plásticas Brasileiras.


A ARTE DE MARIA TABOSA- UM PANORAMA DA ARTE PERNAMBUCANA
Observando a obra de Maria Tabosa, de imediato nos encantamos com o dinamismo das linhas, o colorido suave e quente, o ato feminino de costurar a liberdade, os sonhos, de forma atemporal. Trata-se de uma obra riquíssima em detalhamento formal e significados.
Há o registro de imagens, que não somente descrevem uma trajetória individual de um inconsciente lúdico, mas a conscientização de uma regionalidade apreendida à captura da diversidade cultural da nossa gente. Encontramos em Maria Tabosa a peculiaridade e o esmero no traço próprio, que se manifesta entranhado da arte e do artesanato de Pernambuco. Percebemos, no trabalho desta artista, a espontaneidade do desenho infantil que, no adulto contaminado de referências, produziu o contemporâneo nas vanguardas modernistas.
Em seus desenhos, os elementos vibram, complementam-se numa harmonia sensual. As figuras, tanto evocam brincadeiras, festejos, fábulas, pulando dentro da composição, como fixam-se, convidando-nos  a ouvir com o olhar o diálogo das retinas.
Encontra-se o movimento fluido das aquarelas da fase figurativa de Cícero Dias. Nota-se, em algum momento, a precisão formal, elegante e cerebral na composição de espaços distintos, tão presente na xilogravura, dos Borges a Samico. As modalidades diversas das linhas vão contando histórias. Desenhadas com esferográficas, compartilham espaços com o primitivismo cromático, tão popular, aqui conquistado com lápis de cor. A composição é lírica, tensa, brinca com a nossa memória visual e cultural. E eis que surge o tridimensional: tecidos bordados, estamparia artesanal, retalhos justapostos; a cerâmica policromada do barro caruaruense; o maracatu rural, com sua flores e fitas...e retornamos imediatamente ao bidimensional pela força do suporte, a superfície nos traz de volta. E nesse chão, o desenho, vamos reconhecendo mais uma trilha por onde nos conduzem  as linhas: a arte seqüencial, pernambucana, universal. São os personagens, que  com sua simbologia nos convidam a pensar o seu “delineamento, esboço,intento, propósito, desígnio”( definição de Aurélio para o vocábulo desenho ).  É o pássaro que vira peixe ou um grande peixe metamorfoseando-se num pequeno pássaro.
Enfim, a arte de Maria Tabosa, em seu processo de maturação, como nos diz a própria artista, “ representa a liberdade” . Liberdade de quem, a exemplo da Fênix, a imponente ave egípcia, está ligada ao sol e à figura feminina de uma deusa, cultuada por realizar o fenômeno da superação.


domingo, janeiro 23

Musicoterapia - É Ouro Pra Mim - RENATA ARRUDA

Olá, pessoas! Estou d volta após um período de mais uma perda. Mas amanhã trago maiores esclarecimentos. Agora ofereço este clip d Renata Arruda com a música que levei para a vivência de Musicoterapia do último módulo da pós. Curtam!!!

quinta-feira, janeiro 6

Os Reis Magos e o processo de Individuação - em construção

A minha relação com os Reis Magos me conduz à minha adolescência. Na casa de Tia Maria, uma amiga muito próxima da família, íamos a cada ano participar da Celebração dos Santos Reis Magos, como fazemos até hoje. Há momentos de oração diante da mesa posta com frutas, bolos, salgados à base de peixe, grãos, água perfumada, vinho e refrigerantes. No centro dessa mesa, a cena do Presépio, inventado em forma de encenação na Idade Média por São Francisco de Assis . Há referências aos presentes trazidos pelos Magos: o ouro é representado pela fartura dos alimentos e a riqueza das relações afetivas (parentes, amigos e vizinhos presentes); o incenso é aceso à meia-noite (do dia 05 para o dia 06), antes de iniciarmos; e a mirra se faz presente na água perfumada, bebiba por todos no final.


Em preparação para este momento sagrado, comecei a pensar nos Magos e na sua ADORAÇÃO a Deus. E estou pesquisando essas relações com a Alquimia e a Arteterapia. Enfatizo que as conexões fazem parte de questões íntimas, daquilo que me toca o coração, do movimento sensível, pois não encontrei nenhum trabalho sobre a Alquimia e a Arteterapia tendo como objeto de estudo os Magos. Estou ainda iniciando pesquisa com trabalhos de Patrícia Pinna, Giancarlo Schmid, Lígia Diniz e outros autores que trarei posteriormente como referências bibliográficas, além dos links (é só clicar sobre os nomes). Neste momento estou postando aqui no meu SELFBLOG as primeiras impressões e já peço desculpas aos que possuem mais conhecimento, caso tenha viajado muito.

A alquimia, datada do primeiro século A.C. foi desenvolvida durante quinze séculos, influenciando a ciência (física, filosofia, literatura) e as religiões. Consistia na transmutação de metais para a obtenção do ouro. Em seus estudos, Jung percebeu que a individualidade humana estava representada na simbologia alquímica, na qual o ouro significa a conquista da imortalidade. Ele entendeu que essa transmutação correspondia ao processo de individuação, à busca pelo tesouro oculto, encontrado por meio de um profundo diálogo interior e honesto entre o nosso inconsciente e a nossa consciência. Mas o que exatamente Alquimia e Individuação têm a ver com Epifania (manifestação do Menino Deus ao mundo), celebração dos Magos, comemorada hoje, 06 de janeiro?
A troca de presentes no Natal é uma tradição que surgiu a partir dos Magos do Oriente que presentearam o Menino Deus com incenso, mirra e ouro. Há muito a se falar sobre esses “conselheiros”, "astrólogos", "astrônomos", "sábios", “pastores”, “santos”,“reis” e muitas controvérsias, mas detenho-me a perseguir suas pegadas no sentido de aprender com eles o caminho do autoconhecimento, da individuação.

FOTOMANDALACURSO - imagem de Patrícia Pinna

De acordo com São Beda, no seu tratado Excerpta et Colletanea, podemos cogitar que os magos são a imagem do encontro de gerações, representam juventude, maturidade e velhice, fechando o ciclo da vida com a infância do Menino Jesus. Segundo ele  “Melquior era velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas... Gaspar era moço, de vinte anos, robusto... E Baltasar era negro, de barba cerrada e com quarenta anos...” Considerando a alquimia e suas operações, relacionadas ao crescimento psíquico, Giancarlo Schmid elencou os sete procedimentos utilizados. Tentarei fazer uma breve e despretenciosa analogia entre estas operações e o caminho percorrido pelos magos, descrito na bíblia católica, no livro do apóstolo Mateus, no sentido de empreendermos mais um itinerário de individuação que nos auxilie em nosso processo.
Iniciamos com o significado dos nomes dos magos. Gaspar significa “Aquele que vai inspecionar”, examinar com ATENÇÃO; Melquior quer dizer “Meu Rei é Luz”, ILUMINAÇÃO, radiação, claridade, brilho, inteligência; e Baltasar se traduz por “Deus manifesta o Rei”, manifestação, REVELAÇÃO. É curioso notar a presença do feminino. Embora estejamos nos referindo a homens, os magos estão representados por conceitos femininos, nos quais vejo referências à doce presença daquela que acolheu primeiro o Menino: a Virgem Maria, figura arquetípica da Grande Mãe, como que indicando que o grande mistério da individuação está intimamente ligado ao feminino. Assim como a palavra EPIFANIA, que não somente significa MANIFESTAÇÃO, mas Bifana. A Bifana, segundo as tradições dos povos mediterrâneos, era uma velha que, no dia de Reis, saía pelas ruas da cidade a entregar presentes aos meninos que tivessem sido bons durante o ano que findara. Seria uma Mamãe Noel? Penso que é a VIDA, premiando a nossa Sabedoria pela escolha da Pureza de Coração!

Vejamos agora a história dos magos e a seguir uma reflexão à luz da alquimia e do processo de individuação, o caminho realizado por nós, tendo a consciência como ponto de partida em direção ao nosso Eu mais profundo. Eis o poético texto:
 
"E, tendo nascido Jesus em Belém de Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém, perguntando: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos a adorá-lo. E o rei Herodes, ouvindo isto, perturbou-se, e toda Jerusalém com ele.E, congregados todos os príncipes dos sacerdotes, e os escribas do povo, perguntou-lhes onde havia de nascer o Cristo.E eles lhe disseram: Em Belém de Judéia; porque assim está escrito pelo profeta:E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as capitais de Judá; Porque de ti sairá o Guia que há de apascentar o meu povo de Israel.Então Herodes, chamando secretamente os magos, inquiriu exatamente deles acerca do tempo em que a estrela lhes aparecera.E, enviando-os a Belém, disse: Ide, e perguntai diligentemente pelo menino e, quando o achardes, participai-mo, para que também eu vá e o adore. E, tendo eles ouvido o rei, partiram; e eis que a estrela, que tinham visto no oriente, ia adiante deles, até que, chegando, parou sobre o lugar onde estava o menino.E, vendo eles a estrela, regozijaram-se muito com grande alegria.E, entrando na casa, acharam o menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra.E, sendo por divina revelação avisados em sonhos para que não voltassem para junto de Herodes, partiram para a sua terra por outro caminho.” (Livro de Mateus 2,1-12)
1. E, tendo nascido Jesus em Belém de Judéia... Calcinação/Calcinatio é a primeira operação alquímica e consiste em retirar água de um sólido. À realidade insignificante da cidade de Belém (desconsiderada pelos antigos por sua pequenez), Deus responde com o nascimento do Menino, dando forma humana a si mesmo. Esta fase, no nosso processo de autoconhecimento, significa a decisão de iniciarmos um caminho sem volta, de olharmos para nós mesmos e reconhecermos que algo novo começou a acontecer. Tudo o que estava diluído começa a tomar consistência.
2. "...no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém..."  Solução/Solutio, um dos principais procedimentos da alquimia que transformava um sólido num líquido. Era como se o sólido tivesse sido engolido pelo solvente e significava o retorno da matéria diferenciada ao seu estado indiferenciado (matéria prima). A atitude dos magos representa uma mudança de valores, deixam tudo que já estava estabelecido para seguir a luz, a estrela, num tempo frio, duro. Este procedimento convida a um mergulho dentro do si-mesmo. O inconsciente vai fluindo, emergindo e desfazendo o que já se encontrava estabelecido e solidificado pelo Ego.
3. “...perguntando: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? porque vimos a sua estrela no oriente...”. Coagulação/Coagulatio é o resfriamento e mudança do líquido para sólido, pois um sólido dissolvido num solvente reaparece quando o solvente é evaporado. Os magos manifestam, materializam ao “mundo” , representado por Herodes, a PRESENÇA do Menino Deus nascido. Em nós, a nossa busca se intensifica com os nossos questionamentos perseguindo a luz que, longe, já aparece, embora distante ainda, vai se concretizando.
4.e viemos adorá-lo”. Sublimação/Sublimatio. Há a transformação da matéria em ar. O termo "sublimação" vem do latim sublimis, e significa ELEVADO. Isso indica que a substância se sutiliza a partir de um movimento ascendente. A consciência do desejo de adoração dos Magos, é um gesto específico que ainda não atingiu o seu fim, mas pela profundidade da afirmação "E VIEMOS ADORÁ-LO" significa a expansão da nossa percepção do si-mesmo. É um “estou aqui”, mesmo que esse estar seja um olhar para o todo, com uma intenção específica de elevação do Eu.
5. “...E o rei Herodes, ouvindo isto, perturbou-se, e toda Jerusalém com ele.E, congregados todos os príncipes dos sacerdotes, e os escribas do povo, perguntou-lhes onde havia de nascer o Cristo.E eles lhe disseram: Em Belém de Judéia; porque assim está escrito pelo profeta:E tu, Belém, terra de Judá, De modo nenhum és a menor entre as capitais de Judá; Porque de ti sairá o Guia Que há de apascentar o meu povo de Israel.Então Herodes, chamando secretamente os magos, inquiriu exatamente deles acerca do tempo em que a estrela lhes aparecera.E, enviando-os a Belém, disse: Ide, e perguntai diligentemente pelo menino e, quando o achardes, participai-mo, para que também eu vá e o adore...” Mortificação/Mortificatio é o estágio nigredo, o escurecimento da matéria, é a morte da matéria sem referência química sobre essa operação, literalmente é a "morte" da matéria. Segundo Schmid, a putrefactio (estado pertinente a essa operação) é a decomposição que destrói corpos orgânicos mortos (os alquimistas também faziam experiências com material orgânico). É preciso entrar em contato com a sombra, com a morte para uma nova vida. Herodes, que desejava matar o Menino, e Jerusalém aqui representam a negação da Verdade do processo, o medo de irmos além ao encararmos a escuridão. É a dor dos sofrimentos inevitáveis.
6. “...E, tendo eles ouvido o rei, partiram; e eis que a estrela, que tinham visto no oriente, ia adiante deles,...”Separação/Separatio é a separação dos elementos, a destilação ou extração da substância, operação decisiva para atingir a conclusão da opus alquímica. O impacto do processo é necessário para melhor aproveitamento da substância pura. É preciso estar atentos ao self, o centro, “o rei” e não fugir da sombra, mas retomar o caminho, como os magos, significa a continuidade do processo, seguir a estrela, a luz, é fundamental para a realização do último momento.
7. “até que, chegando, parou sobre o lugar onde estava o menino.E, vendo eles a estrela, regozijaram-se muito com grande alegria.E, entrando na casa, acharam o menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra.E, sendo por divina revelação avisados em sonhos para que não voltassem para junto de Herodes, partiram para a sua terra por outro caminho.” Encontro/Coniunctio, o ponto culminante, o encontro das substâncias opostas para se atingir a fusão ideal da coroação do trabalho alquímico, o ponto culminante, harmonia dos opostos. A estrela parou, chegou ao seu destino. Os magos respiram e continuam: entram na casa e vislumbram o Menino Deus em sua pureza e desconforto da manjedoura. Ele não está sozinho (humanos, animais, plantas, cosmo). Ao adentrarem na casa, os magos anunciam a passagem para a concretização do processo, a emoção de estar chegando ao final do processo. Eles então o adoram. Há uma manifestação ambígua: noite/luz, comunhão com a natureza e reclusão do mundo, doçura inocente e aspereza do lugar onde a criança é colocada, novidade e tradição...Primeiro o impacto de chegar (adoração e ofertas), segundo a plena consciência de, conhecida a VERDADE, seguir pelo caminho correto. E este caminho, contrário ao anterior, é a vida nova, conquistada a partir do conhecimento empírico, da experiência íntima do autoconhecimento.

Ao final do processo, seremos donos de nós mesmos. Contudo, isso acontecerá de modo conflitante, pois poderemos assumir não só a postura dos magos, mas as atitudes dos outros personagens podem ser latentes, numa dinâmica desafiadora. Posteriormente, pretendo tentar destrinchar a persona de cada um, incluindo a figura sombria do rei Herodes, e o que o significado dos presentes dos Magos nos dizem de importante. Por enquanto, é só. 


terça-feira, janeiro 4

CRONOS e o caminho para a imortalidade

Fênix feita de garrafa pet, EVA e esmalte sintético.
Lindo presente confeccionado por minha amiga Mila
Finalmente aterrissei em 2011! Como sempre, Cronos e eu tentando organizar minha vida. É muito engraçado pensar no tempo. Geralmente nos queixamos de sua perenidade ausente. Com ele tudo parece um flash de existência. Ontem e hoje eu e um amigo querido conversávamos sobre Cronos e eu arrisquei uma "análise", se é que posso chamar assim, das nossas relações com o mito. Depois, sozinha, comecei a pensar sério sobre isso e vieram outras questões, que resolvi compartilhar aqui. Quero enfatizar que são apenas reflexões. O que escrevo é fruto dos meus pensamentos. Busquei em sites as citações, mas o que escrevo vem das minhas indagações. Acedito que não há um mito fechado, amarrado a determinadas considerações. Ao contrário, o que me agrada nos mitos é a flexibilidade, a fluidez com que nos vemos presos a eles, que caracterizam fases e situações vividas. O mesmo mito pode provocar reflexões distintas e isso é bacana, poder repensar a vida a partir do que os mitos nos trazem. No caso de Cronos há alguns aspectos que poderemos considerar, investigar no nosso processo de individuação, a partir das relações entre este deus e os deuses  Gaia, Metis , Réia e Zeus. Vejamos.
 Primeiro, "a pedido de sua mãe (Cronos) se tornou senhor do céu, castrando o pai com um golpe de foice". Acredito que quando assumimos um Cronos castrador e inseguro, perdemos muito fácil a energia vital para conquistarmos os nossos objetivos. Entra em cena a arrogância, a superioridade de um olhar verticalizado que não considera o entorno. Separando definitivamente céu e terra, Cronos isola corpo e mente e desequilibra as nossas forças complementares. Nossas relações humanas tornam-se conflitantes, principalmente entre gerações distintas e hierárquicas. Podemos perceber esse aspecto castrador de um Cronos jovem que se insurge contra valores antigos, tradições ditas como ultrapassadas, encaradas com violência. Relações de trabalho, familiares e o processo de individuação ficam lesados quando não compreendemos o tempo como aliado no nosso amadurecimento. A relação de Cronos com Gaia, a mãe manipuladora, também é considerável. Interessante observarmos que, de acordo com o mito, Gaia “ fez de seu próprio seio uma pedra em forma de lâmina” ou foice, com a qual Cronos decepou o falo de seu pai. Mulheres que não se resolvem com seus parceiros e manipulam seus filhos, colocando-os contra seus pais, podem estar fortemente ligadas a estas relações mitológicas. Perdendo o seu tempo, fazem os outros perderem o seu tão precioso tempo também.

No seu segundo aspecto, Cronos é o"engolidor dos filhos". Quantas vezes engolimos os próprios projetos antes mesmo deles criarem consistência?

Aí surge o terceiro aspecto do mito,"... comeu todos exceto Zeus, que Réia conseguiu salvar enganando Cronos, enrolando uma pedra em um pano, a qual ele engoliu sem perceber a troca."  Nossa vida profissional muitas vezes é esse Zeus/pedra, que nós engolimos por engano, aquilo que foi assumido, mas não digerido, aceito por conveniência, um incômodo que poderá durar toda uma vida. O pano é a conexão com a realidade, o tecido, aquilo que é assimilado em sua aparência compreensível, como disfarse daquilo que realmente gostaríamos de fazer, nossa verdade oculta. Vejo associado a isso o pensamento de investir numa profissão que dê dinheiro, em detrimento àquilo que realmente queremos e que nos faria felizes. Nesse sentido, a pedra é a dureza interior maquiada, o “preciso ganhar dinheiro para sobreviver” e tantas vezes sacralizada, envolta no pano da pseudo coerência.  Proposta por Réia, que compõe esta reflexão como a vida prática, o jogo de cintura, o pensar rápido, a esperteza da  inteligência objetiva que nos desvia da verdadeira realização. Por fim, completando a conexão dos equívocos, o Zeus/pedra, que é o nosso masculino aceitável, o racional, que em sua forma negativa promove estragos enganadores. Quanto tempo perdido!
Vejamos o quarto aspecto. "Quando Zeus cresceu, resolveu vingar-se de seu pai, solicitando para esse efeito o apoio de Metis , a Prudência, filha do titã Oceano. Esta ofereceu a Cronos uma poção mágica, que o fez vomitar os filhos que tinha devorado." Zeus, o verdadeiro,  representa aquilo que vive e é latente em nós. É um belo arquétipo de herói e de realização positiva, na sua relação com o pai Cronos. Como arteterapêuta em processo, vejo Metis como sendo a Arteterapia, que retoma a energia reprimida com sua poção mágica: as vivências! Elas nos fazem vomitar aquilo que não foi digerido porque não foi assimilado como deveria. É o momento de retomada, de revermos nossos modelos arcaicos de planejamento do tempo.  É o alívio: podemos ainda consertar os erros do passado, pois o tempo não foi de todo perdido! Resta a nossa verdade, o nosso Eu e a terapia individual é aquela que nos ajuda a transformar o “vingar-se” em fazer justiça a nos mesmos. Ela entra no processo nos fazendo assumir o nosso tesouro de luz (significado do nome ZEUS). Penso que as vivências arteterapêuticas, como pintura em pedras e costura/bordado em tecidos podem nos ajudar a reavaliarmos o tempo e suas implicações em nossas vidas. Entremos em contato o mais profundo que pudermos com o nosso tesouro luminoso, o nosso Eu. Um dos símbolos ligados a Zeus, além do carvalho, do relâmpago e do touro, é a ÁGUIA. Assim como a fênix, temos mais uma ave a nos inspirar. Ligada a Zeus, a águia é símbolo de FORÇA, de perspicácia,  visão penetrante, inteligência superior. Assim como símbolo das artes e da alma humana. Então, que venha a águia e nos ensine a abraçar Cronos com suas garras e com a força de Zeus, nos conduza à imortalidade.